sexta-feira, 1 de agosto de 2014

TÔ SÓ - Hilda Hist



TÔ SÓ

Vamo brincá de ficá bestando e
fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar
nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá
que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num
festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi
bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo
brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade
até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das
gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais
os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a
alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu
descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais
carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama
(como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta?

Hilda Hist

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